segunda-feira, 20 de maio de 2019

DIRETO DA ESTRADA - Aventuras (e apuros) na neve! (NOVA ZELÂNDIA)


Caros viajantes!

Para o 1º artigo DIRETO DA ESTRADA da Ilha Sul da Nova Zelândia, escolhi um destino que visitei já no fim da minha temporada em Christchurch (a 3ª cidade na qual morei aqui - as outras foram Auckland e Tauranga): Arthur's Pass, onde a beleza e a imensidão da natureza são tamanhas que podem até te "entorpecer" e colocar em perigo! 😮

Foi lá que tive contato direto com a neve pela 1ª vez no país... E lá que vivi "momentos de tensão" que poderiam facilmente entrar pra minha lista de maiores perrengues em viagens - sendo a 2ª vez que isso acontece em montanhas (a 1ª foi em Liechtenstein)! 😬

Na verdade, minha casa em Christchurch, a maior cidade da Ilha Sul e palco de recentes atentados que foram notícia no mundo todo (sim, eu estava lá quando eles ocorreram NO MEU BAIRRO), acabou sendo meio que só um ponto de referência pra mim no norte da ilha, já que a cidade em si não tem graaandes atrações - mas foi de lá que eu parti pra explorar essa região.

Tirei essa foto enquanto dirigia na estrada entre Christchurch e Arthur's Pass... Na Nova Zelândia, o caminho sempre faz parte do espetáculo - quando não é o próprio! 😃
Arthur's Pass fica no centro-norte da Ilha Sul, a pouco mais de 2 horas de carro de Christchurch. Trata-se de um belíssimo Parque Nacional com mais de 1.000km², composto por montanhas, florestas, rios e vales. É uma região consideravelmente isolada, que só tem uma pequena vila (distante muitas dezenas de km do outro povoado mais próximo), e pela qual passa, justamente no "Desfiladeiro de Arthur" (Arthur's Pass), uma das únicas estradas que ligam as costas leste e oeste da Ilha Sul - pra você ter ideia, a próxima ligação fica a mais de 500km de distância, já que o interior da ilha é formado quase que só por enormes montanhas!

Achei que conseguiria não congelar no minuto que fiquei fora do carro sem roupa grossa, mas a foto claramente mostra que não! 😂
Quando fui pra Arthur's Pass, eu já era um apaixonado pelas trilhas neozelandesas, então não dá pra dizer que "caí de pára-quedas" lá; antes de ir, estudei bastante a região, chequei a previsão do tempo, comprei algumas coisas pra minha sobrevivência e escolhi 3 trilhas que calculei que poderiam ser feitas num dia só e que não pareciam ser absurdamente difíceis - pelo menos, não para o parâmetro que eu considerava ter: poucos dias antes eu tinha feito uma trilha bem exigente (Peak Hill, no Lake Coleridge), e menos de 1,5 mês antes, completei a mais dura da minha vida (Tongariro Alpine Crossing) - ambas serão tema de artigos próprios no futuro!

Meu plano era fazer um bate-volta de Christchurch mesmo, indo de manhã e voltando à noite. E eu consegui! Cenários absolutamente espetaculares, uma bela dose de atividade física... Mas não sem alguns apuros assustadores! 😮

1ª parada em Arthur's Pass: a trilha que leva até as Devil's Punchbowl Falls. Apesar de bonitas, elas não me impressionaram tanto quanto outras cachoeiras da NZ... Nível de dificuldade: fácil!
O clima não estava muito convidativo (bastante nublado e frio), mas mesmo sendo só início de outono, no dia anterior havia nevado em Arthur's Pass! Isso foi o suficiente pra me atrair pra lá, afinal era a minha 1ª chance de tocar a neve na NZ - até então, no país, eu só a tinha visto de longe, no topo de montanhas. Até meu brother brasileiro que mora em Christchurch há vários anos e já conhece bem a região se animou pra ir pra Arthur's Pass, mas no fim ele foi fazer uma outra trilha alguns km antes das que eu queria ir, e que era inédita pra ele; claro que eu não iria obrigá-lo a me acompanhar por caminhos repetidos, e como viajar sozinho nunca foi problema pra mim, parti então "só com Deus" pro meu objetivo! 😃

2ª parada: Bealey Valley. Margeando o rio de mesmo nome, é outra trilha curta, mas já de nível intermediário por causa da irregularidade do terreno e do fato da floresta, aqui, ser mais fechada que na trilha anterior. Ainda sem graaandes espetáculos pra ver, a coisa que mais me chamou a atenção foi esta placa... Era o primeiro indicativo real de que um lugar como Arthur's Pass pode ser perigoso! 😳
3ª e última parada: Temple Basin, a maior, mais difícil e mais sensacional das 3 trilhas que selecionei pra fazer em Arthur's Pass! Foi nela que tirei a foto de abertura do post, e aqui que a aventura REALMENTE começou!! 😃
O caminho era bem íngreme e pedregoso, e como se podia ver já na foto anterior (tirada na base da montanha), as condições climáticas não pareciam muito boas lá em cima... Mas, determinado, decidi ir até onde eu pudesse - até porquê, quanto mais eu subia, mais deslumbrante ficava a vista! Olhando pra frente, a visão era essa aí de cima...
... E olhando pra trás, eu tinha isso!! 😍 (seriam essas nuvens curiosas os olhos de Deus? Hahaha 😁)
Quase lá: aquela casinha abandonada é o fim da trilha... Olha a neve já caindo!! 😃
Finalmente, NEVE!! 😃 Cheguei à casinha, e essa é a visão que se tem dos fundos dela: um vale e mais montanhas que, da trilha, não dá pra ver direito...
... "Mas eu quero MAIS neve! Por que então não vou até aquela parte mais branca?", disse pra mim mesmo. Afinal, mesmo não havendo uma trilha que levasse até lá, não parecia longe! Sem pensar muito mais, me coloquei a caminho...

... "Tá realmente perto! Só mais um pouco"... Só que não.
... E foi aí que a coisa QUASE "azedou" - de verdade.

Fascinado com a beleza do lugar e "entorpecido" pelo tamanho das montanhas, eu perdi a noção do perigo. Como numa miragem, elas são muito maiores e desafiadoras do que os nossos olhos brasileiros, pouco ou nada acostumados com esse tipo de paisagem, enxergam. Eu andava e a tal parte branca, com mais neve, não chegava! Foi então que cheguei a um ponto onde, por causa da inclinação muito acentuada, o único modo de continuar era descer um pedaço da montanha e dar a volta por um trecho menos íngreme. E aí tomei uma decisão errada: à essa altura, eu já estava num terreno totalmente inóspito, a centenas de metros do fim da trilha, então deveria parar por ali e ter voltado...

... Mas a adrenalina falou mais alto e eu PROSSEGUI. Literalmente deslizei por um trecho da montanha, com várias pedras rolando (vai vendo!!), e cheguei nesse riacho que quebrava aquele silêncio sublime com um som quase estrondoso... A neve derretida descia por ele até láaa embaixo, perto da estrada, e ingenuamente eu até pensei que, depois, talvez pudesse fazer o caminho da volta seguindo o curso dele, em vez de usar a trilha de novo (😒)
Retomei então a subida, por um caminho menos inclinado, mas esse foi o ponto mais próximo que cheguei de onde eu queria. Saí sorrindo e quase fechando os olhos na foto porque tinha acabado de começar uma nevasca (dá até pra ver a neve caindo com mais intensidade), mas também é visível como o tempo tinha fechado MUITO... Segundos depois que tirei a foto foi que eu me dei conta disso, e também percebi que, definitivamente, aquele NÃO era um lugar pra eu estar!! 😲
Nesse momento, embora eu até tivesse uma noção da direção pra qual eu deveria seguir (a casinha do fim da trilha), ela não estava mais visível; eu havia feito curvas, descido, subido, e pra completar, agora tinha neve caindo e neblina, diminuindo o raio de visão. Comecei o retorno apressadamente, mas logo me dei conta da "armadilha" em que eu tinha me metido... 😨

Quem disse que eu conseguiria voltar pelo mesmo caminho?! Eu sequer tinha certeza de onde eu havia passado, porque não havia uma trilha e muito menos marcadores! Além disso, o terreno era MUITO difícil: super íngreme, molhado, escorregadio e cheio de obstáculos (arbustos altos demais pra passar por cima, grandes pedras soltas, fios de água que desciam do topo das montanhas)... Considerei novamente descer tudo pelo riacho porque eu sabia onde ele ia dar, mas concluí que talvez seria arriscado demais: provavelmente eu estava subestimando a distância de novo, e eu precisava sair logo daquele tipo de terreno perigoso! 😰

Fui ficando bastante nervoso, afinal, além da enorme dificuldade que eu estava tendo pra conseguir achar um caminho pra retornar à casinha, se acontecesse um acidente ali (uma queda feia ou mesmo algo não tão grave, como um pé torcido), talvez eu ficasse agonizando até morrer (*); eu estava sozinho, e na trilha inteira (cerca de 1h30 de percurso), eu não havia cruzado com mais que 3 ou 4 pessoas... Ou seja, eu estava totalmente isolado naquele lugar, sem sinal de celular, ninguém nem imaginava que eu havia ido até ali e pra piorar (só pensei nisso depois), eu estava "camuflado" numa roupa preta - entendeu agora porque as roupas de neve quase sempre são coloridas?! 😱

Nessas horas, o importante é não entrar em pânico e tentar manter o pensamento positivo. E, se você acredita (eu acredito), pedir por ajuda divina. Foi isso que eu creio que me salvou numa outra situação extrema de perrengue/perigo numa viagem (México), e isso que eu creio que TAMBÉM me salvou agora: continuei andando e graças a Deus, a nevasca parou (ou eu que a deixei pra trás), e já agarrando os arbustos como um macaco, eu consegui escalar um trecho bem inclinado em que eu já estava "preso" há alguns minutos, porque não queria perder mais tempo voltando a descer e tentando outra rota, mas tampouco sabia como e por onde prosseguir! Dali, consegui avistar a casinha de novo, e com exceção de uns arranhões e uma dorzinha no pé, nada de mal me aconteceu e eu cheguei nela são e salvo!! 🙏

Felizmente, o perigo ficou pra trás!! Com o tempo melhor e já recuperado do susto, tirei essa foto da montanha traiçoeira, antes de iniciar a descida de volta da Temple Basin (PELA TRILHA 😅)
Última foto de um dia inesquecível - para o bem, para o mal e principalmente pelas lições aprendidas!!
Mas ainda não tinha acabado. Mais uma vez eu bobeei, pois já eram 18h30 e o único posto de gasolina da vila fechava às 18h! Pelo menos dessa vez, eu não senti tanta culpa porque não era algo que eu era obrigado a saber - os postos da NZ são self-service e geralmente funcionam 24h... O próximo posto ficava a quase 100 KM de distância, já no caminho de volta pra Christchurch, e eu tinha menos de 1/4 de tanque. Resultado: já que o carro gasta menos combustível na estrada do que na cidade, e também pra diminuir o risco de chegar na tal cidadezinha e o posto de lá também ter fechado, saí "voando" de Arthur's Pass!! Felizmente a estrada é vazia, mas isso também me deixou ainda mais preocupado porque à essa altura já era noite, e se a gasolina acabasse, eu estaria DE NOVO sozinho, isolado, no frio e agora, também num BREU total... Porém, no fim, mais uma vez deu tudo certo! 😅🙏

Depois de Arthur's Pass, se faltava alguma lição pra não subestimar a natureza, eu aprendi. Não somos NADA perto das forças dela, e em ambientes selvagens e isolados, muitos imprevistos podem acontecer e um perigo pode surgir subitamente, por mais bem preparados que estejamos. Se for então um tipo de lugar ao qual não estamos acostumados, os cuidados têm que ser ainda maiores, tanto no sentido de ter bom senso (se não há uma trilha ali e você não avisou ninguém, é melhor não ir, mané 😒), quanto no de planejamento (na próxima vez, viaje com acessórios mais apropriados e o tanque cheio 😉)!

(*): não é exagero. Apenas 1 semana depois que eu estive em Arthur's Pass, um homem que estava fazendo uma trilha difícil de lá se separou de seu grupo e se perdeu. A noite caiu e só no dia seguinte ele foi encontrado pelo resgate - infelizmente, já sem vida (fonte: https://www.odt.co.nz/news/national/tramper-missing-arthurs-pass-found-dead). Depois, vim a saber que a causa do óbito foi uma queda, e também que o Arthur's Pass National Park é considerado um dos mais perigosos da Nova Zelândia: os casos de pessoas que se perdem e/ou se ferem são relativamente comuns, e essa não foi a primeira morte. Vale a pena visitar? COM CERTEZA! É só ter um pouco mais de cautela e não sair se aventurando achando que nada vai acontecer 😀



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Até a próxima viagem! =)

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